Quantas violências uma mulher precisa suportar antes de ser acreditada?
Não há um dia sequer, que não abrimos as nossas redes sociais e não nos deparamos com mais um relato de violência, mais uma mulher morta por uma sociedade que não as protege, não as defende, não as socorre!
Enquanto mulher, me sinto horrorizada e assustada! Tenho certeza, que tal como eu, você também tem uma experiência de assédio, violência em suas mais diversas faces (física, verbal, psicológica, moral…), e constrangimento para compartilhar, e o resultado disso: MEDO.
Quantas vezes uma mulher precisa dizer que está com medo antes que alguém a escute de verdade?
Porque, na maioria das vezes, ela fala.
Ela avisa.
Ela dá sinais.
Mas o que recebe em troca é dúvida, minimização, culpabilização, silêncio.
“Talvez seja exagero.”
“Todo relacionamento tem conflito.”
“Ele só é ciumento porque ama.”
“Você precisa ter mais paciência.”
A violência raramente começa com o golpe. Ela começa quando a mulher deixa de ser levada a sério.
Na clínica, muitas mulheres relatam experiências que não entram nas estatísticas imediatas, mas que corroem lentamente a saúde emocional, e que inclusive elas apresentam dificuldade de nomear enquanto uma violência:
Essas violências são frequentemente tratadas como “normais”, sempre há uma justificativa (“É preciso ter paciência, homem é assim mesmo!”; “ Se você se esforçar conseguirá mudá-lo”). Até que se tornem insuportáveis. Ou irreversíveis.
Existe uma pergunta que atravessa muitas histórias de violência:
“O que mais precisa acontecer para que eu seja acreditada?”
A mulher precisa chorar?
Mostrar provas?
Apresentar feridas?
Quase morrer?
Enquanto isso, o agressor é explicado, compreendido, humanizado. E ela? QUESTIONADA!
Não é falta de sinais. É falta de escuta.
A descrença na palavra da mulher não é individual, é estrutural.
Ela nasce de uma cultura que ensina que as mulheres devem suportar e os homens a controlar. Que ensina que sentir ciúmes é prova de amor e que chama violência, de conflitos.
Quando uma mulher rompe esse roteiro, passa a ser vista como exagerada, dramática ou difícil. Mas o problema nunca é o excesso de sensibilidade, e a normalização da violência.
Viver sob ameaça constante não é “drama”, é a construção de um processo traumático. O corpo entra em alerta e a mente se fragmenta.
A violência psicológica não deixa hematomas visíveis,
mas deixa marcas profundas: ansiedade crônica, constante estado de alerta, confusão emocional e dificuldade em confiar em si mesma.
A pergunta permanece a mesma, e precisa começar a incomodar:
Quantas violências uma mulher precisa suportarantes de ser acreditada? E a resposta que deveríamos construir é simples:nenhuma.
É preciso começar a escutar, antes do julgamento e das receitas simplistas de resolver a questão, marcada por um ideal machista, para que o pior NÃO aconteça.
Se algo aqui ecoou em você, não ignore.Violência não começa quando o corpo é ferido
começa quando a sua palavra passa a ser desacreditada e você mesma começa a duvidar de si.
Buscar ajuda não é exagero. É cuidado, e você não precisa esperar que a violência se torne visívelpara merecer proteção.
Com todo carinho e acolhimento, a psi!